quinta-feira, 17 de outubro de 2013

sau(sua)dade.

Uma gota escorre pela minha pele, queria não estar viva. A inconstância das coisas sempre foi algo magnético em minha trajetória. Amar para me sentir inteiramente presente. Fingir amar e mergulhar meus dedos incessantemente em uma máquina de escrever. Cada pulsação da minha artéria junta-se num súbito desespero ao dedilhar sobre as letras. Deixar-se viver simplesmente viajando dentro de um sopro suave que percorre um instrumento. Despencar de um desfiladeiro e voar, sentindo meu corpo envolvido por liberdade, abrindo os braços para o desconhecido. Penetrar na mágoa que abate meu olhar e sobreviver, desviando da solidão. Me perdi intensamente em todos os seus textos para talvez entender em que vírgula te perdi. De todas as declarações de amor que não me pertencem, cada palavra se remetia assim, a uma paixão inexistente n'alma humana. Sinto náuseas. Sinto como se um tumor estivesse cravado nas minhas entranhas, esperando para ser vomitado em um papel. Quero beber até que eu me entorpeça em um dos meus poemas patéticos sobre o amor. Procurando em cada tristeza um resquício de arte. Quero deixar de sentir, mas me reprimo num golpe certeiro e caio no chão enlameado pelo pudor e descaso. Prefiro sofrer do que me redimir a um vazio.

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

De súbito.

Talvez num rodopio me cale para a sorte,
Num suspiro a espreita no encontro dos 
Olhares jovens, aflitos por amor.
Não consigo calçar meu andar 
E saber por onde caminhar.
A incerteza balança no meu colo,
Tudo se esvai, como numa tela branca e preta
Rodopiando metodicamente.
Na palpitação do seio arrepiado 
Mergulhado na saliva da minha língua, 
Eu sou o caos que escorre nas suas veias.
De Repente um abismo gélido 
Estanca meu coração,
Sinto vontade de riscar o papel em vão.
Dentro do labirinto curioso, caminho 
Num trôpego passo até o chão.
Morro.
  

terça-feira, 9 de abril de 2013

Marmita quente.

A construção não para
O cimento gela a terra quente,
O operário acende o cigarro,
Como comburente da noite virada.
E a construção não para.

O piso sobe com um ar imponente,
Como o cliente que da risada impertinente
Do sobe e desce,
A gritaria e marmita quente
Passa de mão em mão.
E a construção não para.

Sol se pondo, Sol nascendo,
Trabalhador descendo 
Do expediente.
 Bate a massa e escorre o pão,
Na garganta seca do trabalhador,
Fazendo jus a opressão. 
      

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Ainda que.

O sangue que escorre é vermelho,
É vermelho.
A lágrima que cai é covarde, 
É covarde.
A boca que beija é mentira,
É mentira.
A saliva que troca é nojenta
E a língua que tampa é corrupta.

Eu fumo e gozo: 
É o medo, é o medo.
Eu penso e falo:
É loucura, É loucura.

Mas te amarei, ainda que
 As almas estejam caladas
Pelo furor da opressão.
Beijarei, ainda que 
na minha boca não haja saliva.
Sufocarei em meus seios, ainda que
 Não haja força para lutar.
Gritarei por seu nome,ainda que 
Um mar de mãos me cale,ainda que 
Entorpecida, me feche quietinha:
Gritarei por seu nome, Liberdade!


domingo, 13 de janeiro de 2013

Traição.

Enquanto meu corpo estiver preenchido
Pelo néctar que você suga
E meu ventre te aquecer dos problemas,
Ainda restará uma chama da doença desse amor,
Nem se for a chama fétida do meu cigarro.

O pulso pulsa o sangue da mentira,
O pulso pulsa sem querer pulsar, 
A lágrima ainda cai sem querer cair
E a calúnia é proferida quase sem magoar. 

Juras.

Se a sua pele recuar da minha, 
Se a minha mão não acalentar a sua,
O prazer se dissolverá e, 
O último fio de vida que 
Bate no coração do homem, falecerá.

Que nenhuma palavra expresse mentiras,
Que nenhum beijo se afogue no medo
E nenhuma lágrima venha depois.

Sem amor nada esquenta, nada sacia.
Na blasfêmia dos seus sentimentos
Rogo por uma ponta de prazer, sem pranto.

A linha que cruza o coração do homem
Está gozada pela injúria dos mal amados,
Condenamos á viver no drama das lamentações.

Me ame como mulher, 
Me goze como puta,
Arranha e me laceia como sua escrava,
Arranque meu cabelo e coma minhas migalhas,
Por um amor que talvez seja verdade.