Acendo um cigarro. Meu corpo anestesia
da agitação sofrida anteriormente. A seda queima e em pouco tempo
cheiro inebriante se espalha entre quatro paredes. A fumaça que agora
cobre seu rosto não cobre a dor da verdade que esconde de mim.
Arranco a sua roupa, agarro no seu
cabelo, machuco e excito a sua pele, que arrepia. Enquanto a
sua mão se faz de sutiã, enquanto seu corpo na inércia vai diminuindo
a frequência da respiração.
Meus olhos entregam-se apenas
na função de te adorar. Mas não sei o que vejo,
eu não reconheço seus traços, nem ao menos seu jeito.
Palavras vazias de sentimentalismo
são proferidas com o passar dos ponteiros do relógio.
Meu querido não imagina como
a fumaça o transforma. Talvez me modificasse também. Ela queima
e meu cérebro continua a se expandir. Ao invés de escapar
do buraco como você, ele aparece sorrateiro. Afinal,
pensar é quase sinônimo de sofrer.
Será que é necessário fugir
para me encontrar?
Será que é necessário fugir
para se encontrar?
A fagulha ainda continua a obstruir a
droga até seu corpo se
satisfazer completamente. Apaga o fogo com o mesmo que o deu vida.
Involuntariamente meu corpo pede o seu, minha boca formigando descobre a sua.
E tudo se repete:
O trago é o comburente da nossa paixão.
Abro meus braços para seu descanso,
aconchego meu coração para te ninar.
Deixa eu cuidar de você, vai.
Mesmo na mentira resta algum amor?
Será que de tanto omitir, o que sobra é a verdade?
O mal de gostar tão cegamente pode
ser a única forma de
sobreviver.
Engana-me e eu finjo
que não sei.
Ao olhar-me no espelho, sóbria,
tenho repúdio pelo que vejo: uma
sombra- tolinha.
Amo-te? Não sei se amo
porque desconheço o que é amar. Porém, morro de desejo, ao descaso do meu próprio ser.